Matéria sobre casais sem filhos da Folha Universal

Só nós dois

Por Andrea Miramontes

Pesquisa exclusiva aponta: casais sem filhos têm mais sucesso profissional e cresce no Brasil o número de pessoas que fazem essa opção

Era uma vez uma menina cheia de bonecas. Quando cresceu, ela abandonou os brinquedos, agarrou-se nos livros, tornou-se uma profissional de sucesso, apostou seu tempo no aprendizado de idiomas e se casou com outro profissional bem-sucedido. Viveram felizes, sem filhos e sem problemas financeiros, para sempre.

A história, aparentemente fantasiosa, ilustra a tendência de famílias que cada vez mais optam por não ter filhos.

Na pesquisa “Novos arranjos domiciliares: condições econômicas de casais de dupla renda e sem filhos (Dinc)” divulgada com exclusividade pela Folha Universal, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fez um mapeamento da família brasileira. Os resultados apontam que, quando não têm filhos e possuem dupla renda, os casais brasileiros ganham R$ 2.531, enquanto a média dos lares no País é de R$ 1.672.

De acordo com o professor José Eustáquio Diniz Alves, coordenador da Pós-Graduação do IBGE na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE), esses casais atendem pela sigla Dinc – Duplo ingresso e nenhuma criança –, denominação criada nos Estados Unidos (Dink – double income and no kid). “No Brasil, há cerca de dois milhões de casais sem filhos em que o marido e a mulher têm renda. Isso representa 4% de todos os casais do País, número que cresceu 80% em dez anos. Em geral, os Dincs estudam mais, têm mais acesso à informação e uma renda maior”, conta.

É exatamente nesse perfil que se encaixam Raquel Alves Corrêa, de 32 anos, supervisora da área de tecnologia da informação na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e Luiz Roberto Tavares, de 38 anos, coordenador de tecnologia de informação da Revlon. Casados há 10 anos, pós-graduados, bilíngües, donos de dois carros e dois apartamentos, o casal nem pensa em crianças. “Nunca quis de verdade, sempre priorizei a carreira. Temos uma vida estabilizada, cada qual tem sua individualidade, temos muitos amigos e viajamos bastante”, conta ela, que acaba de ganhar da empresa um curso de MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV), um dos melhores do País.

Para o delegado de polícia Manlio De Cunto, de 63 anos, casado há 22 com a educadora Maria do Carmo Cazechine, de 60 anos, não ter filhos, além de tornar a vida mais fácil, também é uma questão de consciência social. “O planeta já está muito populoso, são mais de 6 bilhões de pessoas, muita gente sem emprego, num mundo poluído. Para que colocar mais um?”, questiona De Cunto.Não ter a preocupação com vidas que dependem de você também facilita no processo de separação. Juntos há 24 anos, Agnaldo Aníbal e Márcia Kralik, ambos de 44 anos, agora vão se separar. “Até nessa etapa da vida as coisas são mais fáceis. Agora cada um vai seguir seu caminho e, não tendo filhos, fica muito mais simples”, conclui Aníbal.

Primeiro vem a pressão para o casamento e, depois de casado, não há como fugir da cobrança da gravidez, que parte tanto da família quanto de amigos. “Claro que a mulher está biologicamente preparada para a procriação, mas a questão é que o fato dela poder ter filhos não significa necessariamente que quer ou que deve tê-los”, explica a psicóloga Lucy Mansur, autora do livro “Sem filhos: a mulher singular no plural”, da Editora Casa do Psicólogo.

Para a contadora Van-derli Aparecida da Silva, de 48 anos, nem os questionamentos da família, e até da médica, a fizeram mudar de idéia. “Desde criança, nunca quis ser mãe, e meu marido também não fez questão de ter filhos”, diz. Com a opção, Vanderli conseguiu mais tempo para si, fez duas faculdades e o marido também pôde estudar.

Mas a ausência de filhos na vida de um casal também pode ter um preço a ser pago no futuro. “Quando mais novas, as pessoas querem viajar, gastar o dinheiro que ganham. Depois, pode ficar um vazio na vida, por isso é preciso refletir bem sobre a decisão”, explica a psicóloga Magdalena Ramos, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e terapeuta de casais e família.

Filhos em outros países

China

No país mais populoso do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes, o governo restringiu o número de filhos, e cada casal só pode ter uma criança. A política de natalidade foi implantada em 1979 e está em vigor na maior parte do país. De acordo com ela, quem tiver mais que um filho paga multa.

Estados Unidos

Há uma projeção de que o número de casais sem crianças vai crescer acima dos 50%, para mais de 31 milhões de casais até 2010, tendo em vista o aumento de pessoas sem filhos desde 1970. A previsão é da revista “American Demographics”.

Alemanha

Segundo o Instituto de Pesquisa Populacional, sediado em Wiesbaden, cada alemã em idade reprodutiva possui 1,3 criança. O que representa a taxa de natalidade mais baixa de toda a União Européia. Hoje, 15% das mulheres do país se dizem avessas à idéia de ter filhos, ao lado de 26% dos homens.

Escritora arrepende-se dos filhos que teve

A psicanalista franco-suíça Corinne Maier, de 44 anos, está se tornando especialista no lançamento de livros sobre temas polêmicos. Em sua última obra “No Kid: Quarante Raisons de Ne Pas Avoir d’Enfant” (Sem crianças: Quarenta razões para não ter filho), ela reúne, de forma bem-humorada e pessoal, os motivos para evitar a maternidade.

De acordo com ela, que tem dois filhos adolescentes, os pequenos atrapalham a vida social do casal, afastam o desejo sexual, deformam o corpo da mulher e ainda vão desapontar os pais no futuro.

Ela acrescenta ainda que a mulher que virou mãe passa a não ligar mais para outras questões que não sejam relacionadas às crianças. Se não tivesse filhos, ela diz que estaria viajando pelo mundo para torrar o dinheiro que juntou com a venda de livros. “Ao invés disso, tenho que acordar todos os dias às 7 horas da manhã, cozinhar e cuidar de afazeres domésticos”, diz.

Entre outros livros, lançou também “Bonjour Paresse” (Bom Dia Preguiça), que discorre sobre a preguiça de se trabalhar em algo só por dinheiro e no qual ensina leitores a continuar no emprego trabalhando o menos possível. O livro faz uma crítica às empresas, que, segundo a autora, não respeitam os valores individuais. Corinne acabou demitida do emprego que tinha, mas ficou rica com a venda de suas obras.

MIRAMONTES, Andrea. Só nós dois. Folha Universal, número 834, 30 de março a 5 de abril de 2008. Disponível em <http://folha.arcauniversal.com.br/integra.jsp?codcanal=981&cod=129815&edicao=834>. Acesso em 06 de outubro de 2009.

3 thoughts on “Matéria sobre casais sem filhos da Folha Universal

  1. Achei super interessante o artigo.Ffala de forma clara e não preconceituosa em relação aos casais que optam por não ter filhos.

  2. Adorei a matéria. Muitas pessoas associam a maternidade à felicidade e muitas vezes se frustram.
    Quem não quer ter filhos é visto como monstro e egoísta.
    Parabéns por mostrar o outro lado da vida sem filhos de forma clara e imparcial.

  3. Sou um “semfilhos” convicto, farei vasectomia assim que tiver dinheiro para pagar por ela e minha companheira é uma “semfilhos” como eu. Nos amamos e além de não querer filhos também não queremos casar, assim teremos nosso território garantido. Somos aventureiros e ter fihos arrasaria com nosso estilo de vida, acabaria com nossa capacidade de fazer passeios e viagens, por essas e tantas outras razões não queremos filhos nem agora e nem no futuro.

    Essa matéria é imparcial e esclarecedora, cita experiências de casais e faz uma análise interessante do tema. Foi legal ler essa notícia. Escrevo textos sobre o estilo de vida “semfilhos” e a mentalidade pró-escolha.

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